“É uma operação muito complicada.” A operação a que se refere o investigador Rui Prieto, do Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores (DOP/UAç), obriga, de facto, a muita perícia e alguma sorte: colocar transmissores de satélite no dorso de baleias que passam nas águas do arquipélago durante movimentos migratórios de milhares de quilómetros. Tudo começa com pessoas treinadas a olhar o mar. Ao avistarem uma baleia, os vigilantes avisam os investigadores e estes seguem as indicações geográficas na tentativa de a encontrar. Mas esta é apenas a parte mais fácil. “É muito raro haver um animal que nos deixe aproximar a uma distância curta para podermos colocar o transmissor. Temos de ir calmamente, várias vezes para a frente e para trás, até se habituar à presença da embarcação.” Com uma tartaruga, ou mesmo com um tubarão, bastaria capturá-los, puxá-los para perto do barco e colocar o transmissor de forma “cirúrgica”, na posição ideal. Condições que neste caso não existem: “Não é um animal que possamos manipular.” À equipa de investigadores resta esperar pacientemente que a baleia venha à superfície para respirar. Então, numa fracção de segundos, com o mar muitas vezes agitado, o transmissor é disparado por uma espingarda de pressão de ar adaptada para este efeito. Se o tiro for certeiro, há-de ficar preso na espessa camada de gordura que envolve as baleias. Uma dezena de equipamentos já foi colocada. A partir daqui começa a ser recebida informação por satélite sobre o seu movimento pelo Atlântico. O Programa de Telemetria por Satélite de Grandes Baleias foi iniciado em 2008 pela UAç com o objectivo de recolher informação sobre o papel do arquipélago na ecologia de três das espécies de rorquais (baleia-azul, baleia-comum e baleia-sardinheira) e desvendar quais os processos que influenciam os seus movimentos. Através deste seguimento remoto, os investigadores querem conhecer melhor os movimentos migratórios das baleias, ver por onde se deslocam, para onde vão, saber se os Açores são apenas um ponto de passagem ou se por ali permanecem algum tempo e porque é que o fazem. “Andámos a marcar animais com transmissores de satélite durante a Primavera. Nesta altura estamos a estudar a informação recolhida”, diz Rui Prieto, revelando já terem sido obtidas informações surpreendentes que permitem começar a dar resposta a algumas destas interrogações. “Acreditamos que os Açores podem ter uma função dupla para as baleias durante os movimentos migratórios.” Em primeiro lugar, num oceano completamente vazio onde, além das ilhas, “não há mais pontos de orientação que a gente conheça”, o arquipélago pode ajudar estas espécies de rorquais a encontrar o caminho entre as águas equatoriais e o pólo. “Isso começa a fazer ainda mais sentido quando vemos que os animais depois de passarem nas ilhas mudam ligeiramente o rumo que estavam a seguir, e vão em direcção a outras áreas.” Restaurante de beira de estrada Além disso, as águas dos Açores têm igualmente uma função de alimentação. “É como se fossem um restaurante de auto-estrada”, segundo a expressão de Rui Prieto. Após um longo Inverno a Sul, em zonas de pouco alimento, o início da migração obriga a um “suplemento de energia”. E é precisamente por esta altura, na Primavera, que ocorre nas águas do arquipélago uma “explosão de produção primária e secundária”, incluindo de organismos que são importantes presas para várias espécies de baleias, como o Meganyctiphanes norvegica, um crustáceo altamente calórico que poderá ser uma importante fonte de energia para estas baleias durante a migração. “Nos Açores encontram as condições ideais para ter algum alimento. É possivelmente uma das primeiras zonas onde isso sucede. Os transmissores de satélites dão-nos esses dados porque elas passam vários dias a andar por aqui, perto dos bancos de pesca, e só depois retomam a migração.” Pela frente têm uma longa viagem que as levará às águas frias mas ricas em alimento do Atlântico Norte, onde passam o Verão. “Imaginamos que tenham um mapa interno e utilizem os pontos de orientação para seguir esse mesmo mapa”, à semelhança, por exemplo, do que sucede com os elefantes em África. No Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores já foram seguidas migrações até à Gronelândia e Islândia. Percursos de 1500 a 2000 quilómetros que, sabe-se agora, conseguem percorrer em pouco mais de dez dias, a uma velocidade de seis a oito quilómetros por hora. • Estranhos mistérios ainda por resolver Viagens: Um dos mistérios que mais intrigam a comunidade científica nas viagens de milhares de quilómetros entre as águas equatoriais e a calote polar é saber se as baleias viajam em grupo ou de forma individual. “Em princípio pensamos que os grupos se podem manter durante a migração, mas infelizmente ainda não temos certezas, não o conseguimos provar”, diz Rui Prieto, garantindo que este aspecto irá continuar a merecer a atenção dos investigadores. Para o resolver será preciso pôr pelo menos dois transmissores em dois animais que passem pelas águas dos Açores num grupo. Só assim se saberá se após deixarem o arquipélago seguem unidos. “Como chegam em busca de alimento, pode dar-se o caso de apenas os vermos em grupo por mera coincidência.” LUIS GODINHO