Cabral Vieira e Eduardo Brito de Azevedo foram os oradores da formação organizada pela Associação Portuguesa de Engenharia do Ambiente. "Energia e alterações climáticas: desafio para as populações insulares" foi o tema de uma formação da Associação Portuguesa de Engenharia do Ambiente (APEA), que teve lugar ontem no polo de Angra do Heroísmo da Universidade dos Açores. O projeto promovido pela Comissão Europeia e levado a cabo em Portugal pela APEA leva formações sobre ambiente a diversas universidades do país. Em Angra do Heroísmo, os formandos contaram com as intervenções do Diretor Regional da Energia, José Cabral Vieira e pelo professor da academia açoriana Eduardo Brito de Azevedo. APOSTA NAS RENOVÁVEIS Perante os alunos da Universidade dos Açores, o diretor regional defendeu um sistema sustentável de energia, que seja "tecnicamente disponível, economicamente viável, socialmente aceite e ambientalmente adequado". Cabral Vieira acredita que estamos numa fase de revolução energética, graças à globalização e às novas tecnologias. Segundo o diretor regional, há tecnologias embrionárias que ainda estão muito caras, mas que há medida que forem produzidas em escala, terão preços mais baixos. PETRÓLEO A 87% Em 2007, as energias renováveis representavam apenas 13% da energia produzida nos Açores, o que significa que 87% ainda depende do petróleo. Nesse ano, com a entrada em funcionamento da Central Geotérmica do Pico Vermelho, a Região registou, pela primeira vez, uma descida da energia dependente de petróleo. É nas energias elétrica e rodoviária que é necessário intervir, já que as duas ocupam mais de 70% da energia utilizada. Para já, Flores e São Miguel são as ilhas que mais aproveitam energias renováveis, com 48 e 47%, do total, sucessivamente. Ainda assim, Cabral Vieira defende que as Flores poderiam ser mais exploradas. Para tal é preciso, segundo o diretor regional, construir uma nova barragem. No inverno, a ilha consegue utilizar 100% de energia renovável, durante várias horas seguidas. A meta da Região para 2018 é passar de 25 para 75% de energia abastecida por renováveis. O diretor regional prende-se neste momento com outro problema. É preciso encontrar uma forma de consumir, em horas de pico, o excesso de energia renovável, acumulada nas horas de vazio. As soluções, segundo Cabral Vieira passam pela armazenagem ou pela massificação de carros elétricos, embora acredite que a curto prazo a primeira opção será mais viável. Para terminar, o diretor regional falou ainda sobre os programas já existentes para empresas e particulares, como o Proenergia, sobre os trabalhos desenvolvidos em colaboração com o MIT e sobre a Certificação Energética de Edifícios. Todas as intervenções promovidas pela Associação Portuguesa de Engenheiros do Ambiente estarão disponíveis, em formato vídeo, no site "apea.castter.com/". (Os textos desta página foram escritos ao abrigo do novo Acordo Ortográfico). Eduardo Brito de Azevedo trouxe à formação as "alterações climáticas". O professor da Universidade dos Açores acredita que elas existem, mas alerta para o impacto da mão humana. Brito de Azevedo dá como exemplo o caso das cheias de 15 de dezembro que atingiram sobretudo as freguesia da Agualva. O investigador mostrou fotografias aéreas antigas e atuais do percurso da Ribeira da Agualva, que comprovam as alterações localizadas da utilização do solo. O recuo da mancha florestal e a alteração das linhas de água são fatores a ter em atenção. "Quando se altera a floresta tem de se esperar uma alteração do ciclo hidrológico", salienta Brito de Azevedo. De acordo com o professor da Universidade dos Açores, o desaparecimento do parque florestal, o tempo de concentração ocorre mais cedo e o pico de cheias é mais alto. Brito Azevedo frisou ainda que entre 1974 e 2008 a Terceira não registou uma quebra de precipitação. Para o professor o arquipélago dos Açores tem por si só um clima bastante variado. "Se estivéssemos preparados para a variabilidade do nosso clima, estávamos melhor preparados para as mudanças climáticas", sublinha.