Esteve presente num encontro no México sobre filosofia para crianças (FpC). Sabe-se que a experiência açoriana foi bem acolhida. E que novidades trouxe que possam ser aplicadas nas nossas ilhas?
No México, a prática de FpC filia-se no modelo de Lipman, o impulsionador desta área nos EUA, na década de 70. Contudo, os especialistas e os formadores mexicanos adaptaram a FpC à realidade do seu País e dos seus currículos escolares, como tem vindo a acontecer um pouco por todo o mundo. A metodologia de FpC pretende colocar as crianças em contacto com o modo filosófico de pensar, defendendo que qualquer criança pode exercitar um olhar questionante sobre a realidade, desde que lhe sejam fornecidos os conceitos e o contexto adequados. Assim sendo, os Açores são um lugar tão válido como qualquer outro para fazer Filosofia com Crianças, bastando-nos estar atentos aos estímulos que melhor se adequem à nossa realidade.
Já é possível perceber nas crianças sujeitas aos vossos programas uma atitude qualquer que possa ser associada ao convívio com a Filosofia?
O nosso trabalho ainda está no início. Em 2008-09, estivemos nalgumas escolas da Região, com a autorização da DREF, no âmbito do projeto CRIA (financiado pelo Governo dos Açores) e desenvolvemos um percurso muito interessante com 5 turmas de diferentes idades. Os resultados estão publicados no livro CRIA: Um projeto de Filosofia para Crianças na Universidade dos Açores. Aí apresentamos o relato de algumas sessões reais, onde é possível verificar a abertura das crianças às questões levantadas pela Filosofia e às reflexões feitas em "comunidade de investigação". Este ano, começámos a trabalhar com duas turmas do 1º ano no Colégio do Castanheiro, em Ponta Delgada, e esperamos no final do ano já podermos retirar mais conclusões em relação ao impacto das atividades.
O projeto da Universidade dos Açores na área da filosofia para crianças tem potencial para ser disseminado na rede oficial de ensino da Região?
Sim, claro! O nosso objetivo a médio-longo prazo seria esse. Contudo, há uma série de contingências decorrentes da forma como os currículos estão organizados que impedem que essa implementação seja imediata. Para além disso, muito há ainda a fazer em termos da formação dos formadores de FpC. Também aqui as opiniões dos especialistas se dividem, nomeadamente no que respeita a quem deverá fazer FpC: apenas licenciados em Filosofia ou qualquer professor do 1º ciclo? A tendência internacional é formar os professores do 1º ciclo para que possam conduzir sessões de FpC com os alunos. Mas isto implicaria, obviamente, fornecer a estes docentes uma formação filosófica sólida, o que demora tempo.
Numa região onde se ensina a crianças a "vender dois pentes a um careca" num encontro oficial sobre empreendedorismo destinado a menores (caso real, em Ponta Delgada), que lugar mental pode restar para a Filosofia?
Ainda bem que me faz essa pergunta porque há um certo deslumbre perante esse tipo de iniciativas. E o que se passa é que as pessoas se fixam em formas vazias de conteúdos, como se fosse possível falar do como sem se saber o quê. O que é preciso é que as crianças aprendam a pensar! Aprendam a elaborar pensamentos coerentes sobre o que as rodeia, de um modo fundamentado e mediato, sem caírem na rede de discursos publicitários e manipuladores da imagem, do imediato, do aqui e agora. E sem reduzirem a realidade à força dos números ditados pelas finanças. É que de tanto se falar em crise, esquece-se que a realidade é muito mais do que a máquina dos mercados. A Filosofia, já desde a sua origem grega, nos vem dizendo que é necessário ver mais fundo.