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Insígnias de Doutor Honoris Causa para o Nobel da Medicina 2006: Graig Melo e o avô herói

Insígnias de Doutor Honoris Causa para o Nobel da Medicina 2006: Graig Melo e o avô herói

O laureado com o Prémio Nobel da Medicina em 2006 é agora Doutor Honoris Causa pela Universidade dos Açores e teve oportunidade de explicar um pouco do seu trabalho a “não cientistas”. Craig Mello destacou as dificuldades e decisões da família ao abandonar a freguesia da Maia há cem anos atrás, como forma de humildade que sempre teve na vida.

A Universidade dos Açores entregou ontem a Craig Mello, as insígnias de Honoris Causa em bioquímica e biologia e o prémio Nobel da Medicina mostrou-se honrado pela distinção e transmitiu à plateia, praticamente constituída por académicos e alunos universitários, como se processa a descoberta que lhe valeu a distinção pela academia sueca.
Craig Mello foi laureado com o Prémio Nobel da fisiologia ou medicina em 2006, juntamente com Andrew Fire, com a descoberta da “interferência mediada por RNA (ácido ribonucleico, que é o responsável pela síntese de proteínas da célula)”, que permite no fundo silenciar ou bloquear a actividade de genes específicos das células, permitindo novas perspectivas de cura para diversas doenças genéticas e mesmo para o cancro.
O agora Doutor Honoris Causa pela Universidade dos Açores salientou que uma das principais vantagens de ter sido laureado com o Nobel foi “poder explicar o nosso trabalho a não cientistas e fazer com que eles pensem nisso”. Em jeito de brincadeira e para exemplificar melhor em que consiste a sua investigação, Craig Mello referiu que adora “dizer ao meu vizinho que ele é parente de um verme”. Isto porque Craig Mello e Andrew Fire usaram o verme C. elegans, um organismo muito usado em estudos de biologia do desenvolvimento, para injectarem o RNA de cadeia dupla que conduziu ao silenciamento de um gene em particular passando o verme a exibir movimentos diferentes.

Meu avô, herói…

Com boa disposição, Craig Mello explicou que o mecanismo que foi descoberto ocorre naturalmente nas plantas e nos animais: “É um mecanismo que existe em cada célula e sem RNA nenhum de nós estaria hoje aqui”. Explicando melhor, aproveitou para adiantar que as células já vivem “na era da informação há mais de 3 milhões de anos e contêm muita informação. Mas como é que essas células conseguem fazer coisas tão complexas? Têm de ter um motor de busca, precisam do Google e o RNA é a solução para o problema da procura das células, é o Google das células”.
Craig Mello exemplificou algumas estruturas de células com RNA, mostrando também as semelhanças do verme C. elegans com os seres humanos.
Antes de esplanar melhor o trabalho que tem desenvolvido, o Nobel da Medicina de 2006 explicou que tudo ficou a dever-se a uma “corajosa e pesada decisão tomada há mais de cem anos pelos meus bisavós”, o abandono da ilha de São Miguel e da Maia.
Apesar de não os ter conhecido, Craig Mello disse que ficou a saber mais sobre eles através das histórias que o avô, Frank Mello, contava. Nascido nos Estados Unidos Frank Mello foi “o meu herói”, avançou o neto que diz que ainda hoje aprecia o exemplo do avô e dos bisavós que “não tiveram a possibilidade sequer de acabar o liceu”.
“Sabia que tinha uma grande oportunidade e que uma pessoa pode ter uma vida cheia e com significado em qualquer profissão, uma vida cheia de paixão pelos seus sonhos e pelos dos seus filhos e netos. Frank Mello ensinou-me que o segredo da vida é viver com paixão e humildade, não é sobre sucesso ou fracasso ou o dinheiro que se tem, mas sim uma atitude forte, o desejo de fazer o mundo melhor”, afirmou.

Universidade enquanto ponte

Foi devido a essa atitude e à procura que “encontrei o meu emprego de sonho como cientista. A ciência é procurar novos mundos e experimentar para ver qual desses mundos imaginários é semelhante ao que vivemos”, explicou ao acrescentar que “o processo científico é bom para manter a humildade, os cientistas enganam-se quase sempre e se aprendemos alguma coisa no processo ficamos contentes”, refere Craig Mello que adianta que “para os meus avós foi saber que filhos e netos teriam oportunidades que nunca tiveram e fazer do mundo algo melhor”.
Na apresentação das insígnias Honoris Causa, a madrinha Maria Leonor Pavão Sequeira de Medeiros, salientou que em 2008 propôs ao Conselho Científico da Universidade a atribuição do título e que foi logo aceite. A madrinha explicou a aplicação das descobertas dos laureados na medicina e salientou que prova maior de humildade e de humanidade foi o “entusiasmo em explorar novas e desafiantes maneiras de aliviar o sofrimento humano”.
Já o reitor da Universidade dos Açores, Jorge Medeiros, destacou a presença açoriana nos Estados Unidos e no Canadá como “pano de fundo” para a interacção da academia açoriana com as várias universidades americanas. Neste sentido Jorge Medeiros salientou que “a universidade deve evoluir no sentido de se diferenciar, pelo seu posicionamento de “ponte” entre instituições Europeias e dos EUA na área do I&D. Importa desenvolver medidas que permitam tirar partido desta oportunidade a vários níveis” destacou o reitor para quem a Universidade dos Açores tem de estar consciente dos direitos e deveres na sociedade cada vez mais qualificada.

Autor: Sofia Garrido


2012-1-27 por Correio dos Açores em www.correiodosacores.net

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